{"id":2261,"date":"2025-11-25T13:05:17","date_gmt":"2025-11-25T16:05:17","guid":{"rendered":"https:\/\/monicaacciolyadvocacia.com.br\/blog\/?p=2261"},"modified":"2025-11-25T13:05:17","modified_gmt":"2025-11-25T16:05:17","slug":"o-direito-do-ex-conjuge-nao-socio-a-lucros-e-dividendos-de-cotas-societarias-analise-da-jurisprudencia-do-stj","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/monicaacciolyadvocacia.com.br\/blog\/o-direito-do-ex-conjuge-nao-socio-a-lucros-e-dividendos-de-cotas-societarias-analise-da-jurisprudencia-do-stj\/?id=2261\/","title":{"rendered":"O Direito do Ex-C\u00f4njuge N\u00e3o S\u00f3cio a Lucros e Dividendos de Cotas Societ\u00e1rias: An\u00e1lise da Jurisprud\u00eancia do STJ"},"content":{"rendered":"\n<p>A dissolu\u00e7\u00e3o de um casamento ou uni\u00e3o est\u00e1vel frequentemente envolve a complexa partilha de bens, incluindo participa\u00e7\u00f5es societ\u00e1rias. Uma quest\u00e3o recorrente e de grande relev\u00e2ncia jur\u00eddica diz respeito ao direito do ex-c\u00f4njuge que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3cio da empresa de receber lucros e dividendos das cotas que integravam o patrim\u00f4nio comum do casal. O Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) tem se posicionado de forma clara sobre o tema, garantindo a prote\u00e7\u00e3o patrimonial do ex-c\u00f4njuge.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Entendimento do STJ<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Terceira Turma do Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) consolidou o entendimento de que o ex-c\u00f4njuge n\u00e3o s\u00f3cio possui direito \u00e0 partilha dos lucros e dividendos distribu\u00eddos pela empresa ao ex-c\u00f4njuge s\u00f3cio. Este direito abrange o per\u00edodo que vai desde a separa\u00e7\u00e3o de fato do casal at\u00e9 o efetivo pagamento dos haveres correspondentes \u00e0s cotas.<\/p>\n\n\n\n<p>A fundamenta\u00e7\u00e3o para essa decis\u00e3o reside na natureza jur\u00eddica das cotas sociais ap\u00f3s a partilha. A Ministra Nancy Andrighi, relatora de casos emblem\u00e1ticos sobre o tema, explica que a separa\u00e7\u00e3o de fato p\u00f5e fim ao regime de bens da uni\u00e3o. Com a partilha das cotas sociais, instaura-se um estado de condom\u00ednio sobre esses bens.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse cen\u00e1rio, o ex-c\u00f4njuge, embora n\u00e3o seja formalmente um s\u00f3cio da empresa, \u00e9 considerado um &#8220;cotista an\u00f4malo&#8221; ou &#8220;s\u00f3cio do s\u00f3cio&#8221;. Isso significa que ele det\u00e9m um direito patrimonial sobre as cotas, mas n\u00e3o participa das atividades ou da gest\u00e3o da sociedade. O direito de receber os frutos do bem comum \u00e9 assegurado pelo Art. 1.319 do C\u00f3digo Civil, que estabelece que &#8220;cada cond\u00f4mino responde aos outros pelos frutos que percebeu da coisa e pelo dano que lhe causou&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Crit\u00e9rio de Apura\u00e7\u00e3o dos Haveres<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto crucial abordado pelo STJ \u00e9 a metodologia para a apura\u00e7\u00e3o dos haveres. Havendo omiss\u00e3o no contrato social da empresa quanto aos crit\u00e9rios de avalia\u00e7\u00e3o das cotas, a jurisprud\u00eancia do STJ determina a aplica\u00e7\u00e3o do balan\u00e7o de determina\u00e7\u00e3o. Este m\u00e9todo, previsto no Art. 606 do C\u00f3digo de Processo Civil, visa apurar o valor patrimonial da sociedade, considerando bens e direitos do ativo (tang\u00edveis e intang\u00edveis) a pre\u00e7o de sa\u00edda, al\u00e9m do passivo. A autonomia privada dos s\u00f3cios \u00e9 respeitada, mas, na aus\u00eancia de previs\u00e3o contratual, a lei estabelece um crit\u00e9rio justo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Exemplo Concreto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Consideremos o caso de Ana e Bruno, casados sob o regime de comunh\u00e3o parcial de bens. Durante o casamento, Bruno adquiriu cotas de uma sociedade empres\u00e1ria. Em 2023, o casal se separou de fato, e em 2024, o div\u00f3rcio foi judicialmente decretado, com a determina\u00e7\u00e3o de partilha das cotas societ\u00e1rias de Bruno.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o de fato, mas antes da efetiva liquida\u00e7\u00e3o e pagamento da parte de Ana nas cotas, a empresa de Bruno distribuiu lucros e dividendos. Bruno, como s\u00f3cio, recebeu esses valores.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o entendimento do STJ, Ana, mesmo n\u00e3o sendo s\u00f3cia da empresa, tem direito a uma parte desses lucros e dividendos. Esse direito se estende desde a data da separa\u00e7\u00e3o de fato (2023) at\u00e9 o momento em que sua parte nas cotas for efetivamente apurada e paga.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o contrato social da empresa n\u00e3o especificar como as cotas devem ser avaliadas em caso de sa\u00edda de um s\u00f3cio (ou de um &#8220;s\u00f3cio do s\u00f3cio&#8221;), o juiz determinar\u00e1 que a apura\u00e7\u00e3o dos haveres de Ana seja feita com base em um balan\u00e7o de determina\u00e7\u00e3o, conforme o Art. 606 do C\u00f3digo de Processo Civil. Isso garante que o valor a ser recebido por Ana reflita o real valor patrimonial das cotas no momento da resolu\u00e7\u00e3o da sociedade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua mea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o do STJ no REsp 2.223.719 e em casos an\u00e1logos refor\u00e7a a prote\u00e7\u00e3o dos direitos patrimoniais do ex-c\u00f4njuge em dissolu\u00e7\u00f5es matrimoniais que envolvem participa\u00e7\u00f5es societ\u00e1rias. Ao reconhecer o direito aos lucros e dividendos at\u00e9 o pagamento efetivo dos haveres, a jurisprud\u00eancia busca evitar o enriquecimento sem causa de um dos c\u00f4njuges e garantir uma partilha justa, mesmo diante da complexidade das rela\u00e7\u00f5es empresariais e familiares. Para as empresas e seus s\u00f3cios, a li\u00e7\u00e3o \u00e9 clara: a previs\u00e3o de cl\u00e1usulas espec\u00edficas nos contratos sociais sobre a apura\u00e7\u00e3o de haveres em caso de div\u00f3rcio \u00e9 fundamental para evitar lit\u00edgios e garantir a seguran\u00e7a jur\u00eddica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A dissolu\u00e7\u00e3o de um casamento ou uni\u00e3o est\u00e1vel frequentemente envolve a complexa partilha de bens, incluindo participa\u00e7\u00f5es societ\u00e1rias. 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